quarta-feira, 30 de julho de 2008


estou sozinha , aqui , nesta casa com mil quartos . estou sozinha , aqui , nesta floresta de
solidão . estou sozinha , aqui , nesta parede branca , neste muro cor de cal , neste céu tão
insipido quanto tu . estou sozinha , bem o sei . não importa onde nem com quem . afinal ,
onde quer que vá , com quem quer que esteja , estou sozinha , bem sozinha . agora , só
existo eu e o meu eco . só nós . só nós vivemos , só eu e ele é que sentimos e dançamos
de mão dada . só eu e o meu eco é que vemos o luar . só nós dois tocamos nas estrelas e
cheiramos a terra . estou sozinha , aqui . ou talvez não . secalhar , estou simplesmente
aprisionada com o meu eco , nesta casa , neste palácio , nesta mansão . estou aqui , só
aqui . não me vês ? não ? mas eu estou aqui , na lágrima que acabaste de verter . já vês
agora ? olha , olha , estou aqui , neste sorriso que jamais esboçarás , estou aqui ! sempre
aqui , sozinha . estou aqui , ou ali , ou acolá . o que interessa é que estou . estou agora e
sempre estarei . e , se por algum motivo não estiver aqui , devo estar algures no teu
coração , que já não existe . ou então , talvez ande a voar pelo ar ou pelo vento . secalhar
pelo sol , não sei bem . talvez esteja a cheirar esta ou aquela flores . no entato , embora
não saiba bem onde estou ou estarei , uma coisa é certa , o único que me acompanha e
acompanhará é o meu eco , só o meu eco .
nunca percebi muito bem o que era , o que sou . sou alguém , é certo . tenho braços , pernas , olhos , boca . penso , reflito , vivo . sorrio , rio , abraço . sinto ódio , amor , esperança , tristeza , solidão . sinto-te a ti , sinto o mundo e tudo o que ele embarca . sinto a chuva , a terra . sinto o fogo e água . sou um Homem . sou alguém . sou a Rita . sou um mundo , tal como todos nós . eu sei que o sou . aliás , sei que sou e faço tudo isto . no entanto , sempre que me tento descobrir , que tento descobrir o que me rodeia , dou por mim a olhar para um buraco negro , para um vazio de respostas , de certezas . por vezes , bem tento convencer-me que sei tudo , que já há muito equacionei a resposta para a pergunta que há tanto tempo faço . mas , logo a seguir enrolo as pernas na minha própria mentira , caio , e volto ao principio . volto à dúvida que me angustia desde o dia que me senti viva , volto ao que não me deixa dormir à noite , volto à questão a que todos tentam responder , o porquê do mundo , o porquê da vida , o porquê de tudo isto .

terça-feira, 15 de julho de 2008

antigamente dominava as palavras como me domino a mim . controlava-as , tinha-as . sabia que bastava pensar no que sentia , que tudo me saia naturalmente . como se elas tivessem pezinhos e se pusessem exactamente onde eu as querias , onde ficavam bem . bastava agarrar numa caneta , numa folha , na minha alma e tudo se compunha como por magia . e assim , passava horas . passava horas a escrever , a passar para papel tudo o que sentia , o que pensava . a dizer coisas sem sentido e a po-las coesas , racionais . parecia tão simples , tão fácil . mas agora , que cresci , tudo parece mais dificil , mais confuso . o que escrevo , já não me soa tão bem , tão certo , tão simples . não sei , talvez tenha perdido o 'talento' , talvez já não ache o mundo tão bonito , tão humano , tão harmonioso , como o achara em tempos . talvez , já não acredite no amor ou em tudo o resto . ou então , talvez seja mais fácil , em vez de escrever o que sinto , preocupar-me em vive-lo , em faze-lo acontecer . em exprimentar isto que tenho , até não ter mais . até tudo acabar e eu não sentir mais nada , nem mesmo o meu coração .