sábado, 31 de janeiro de 2009


às vezes , ponho-me a olhar para mim , para o mundo . ponho-me a olhar para a cadeira em que
estou sentada , para a caneta com que escrevo este texto . às vezes , ponho-me a pensar como
seria a humanidade sem esta cadeira , sem esta caneta . às vezes , olha para a rua , através
da janela do meu quarto e imagino a minha vida sem tudo isto . sem este monte de lixo
opressivo e desgastante que nos impede a todos de viver , sem esta necessidade de ter que
existe no Homem, sem esta ganância , sem esta fome meramente material e artificial que nos
vai matando , aos poucos . se pensarmos bem , mesmo bem , a maior parte de nós não vive ,
limita-se a sobreviver . limita-se a ver passar o tempo , limita-se a tentar agarrar coisas de que
não precisa mas que tem necessidade de ter , limita-se a flutuar superficialmente pelo mundo ,
pela vida . limita-se a comer , a vestir-se , a dormir , a sentar-se confortávelmente no sofá da
sala a ver televisão . limita-se a escrever textos numa folha de papel . ignora , ou aprende a
ignorar que o mundo não é nada disto . o mundo não é uma televisão , não é uma caneta , o
não é uma cadeira , o mundo não é um homem . o mundo é a terra , é a vida . o mundo é o
vento , é a brisa , é o mar . é o céu , é a relva , é a chuva , é a tempestade que já foi embora.
o mundo é a música , é o pulsar da terra . o mundo são todos grãos de areia de todas as praias
e a neve de todas as montanhas . o mundo é a força que nos mantém vivos , é uma parte do
universo , é vida . o mundo é o mundo é tudo menos o que fazemos dele .

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009


hoje fui à universidade de ciências ver o eclise parcial da lua . fiquei sentada , no muro que rodeadava o pequeno terraço , a ver , aos poucos e poucos , a lua desaparecer. vi , também , num dos telescópios que lá havia , júpiter . júpiter com as suas quatro luas . júpiter , que fica a 850 milhões de quilómetros daqui . até parece impossivel , não é ? parece impossivel conseguir ver algo que está tão longe e não te conseguir ver a ti , que estás tão perto , de mim , do meu coração . parece impossivel . parece impossivel já se conseguir ir à lua , e eu nunca te ter dado a mão ou olhado nos olhos . parece impossivel haverem satélites que viajam por todos o sistema solar e eu nunca ter viajado por ti , pelo teu corpo. parece impossivel sentir a lua tão perto , como se com escadas chegasse lá e ela estar tão longe . parece impossivel tu estares aqui mesmo ao lado e eu sentir-te tão longe , como se nem de avião ou foguetão chegassse até ti . parece impossivel , eu , mesmo depois de saber que não parece , mas é mesmo impossivel alguma coisa resultar entre nós , continuar a amar-te como te amo . continuar a pensar em ti as vezes que penso . continuar a escrever textos idiotas para ti , meu plutão .

desculpem . desculpem se vos fizer sofrer . desculpem se disser algo que vos faça chorar . desculpem . desculpem se disser que o mundo não faz sentido . desculpem se vos deixar tristes , sem rumo . desculpem . desculpem mesmo , está bem ? desculpem , mas não a mim . desculpem as minhas mãos porque são elas que escrevem , desculpem os meus olhos porque são eles que me guiam nesta escuridão imensa de quadrados brancos e linhas pretas . eu , por outro lado , nada faço , nada sou . limito-me a comer , a respirar , a sobreviver . até porque se pensarem bem eu sou só um bonequinho manipulado pelos meus próprios sentidos e pelas minhas próprias emoções . eu sou só , no meio de todo o infinito , uma miserável marioneta . eu e o meu corpo . eu e a minha alma . eu e o meu mundo . e e tu . eu e todos nós . eu e o universo . somos todos um nada . e no entanto é esse nada que faz o mundo girar , que mantém a terra na sua órbitra , que cria vida , que evolui , que vive . é esse nada que todos nós somos que faz com alguma coisa exista .


ainda bem que podemos ser nada , não é ?